O CAMINHO DA GUERREIRA

 

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Aumenta cada vez mais no atual caminho da espiritualidade feminina a necessidade do fortalecimento do poder pessoal, para remover as marcas sofridas dos séculos de opressão, anulação e subjugação pelas estruturas e valores patriarcais, que impuseram regras de comportamento e crenças através de força, intimidação e agressão.

Nas antigas sociedades matrifocais prevaleciam valores de solidariedade e parceria entre homens e mulheres, visando a sustentação, defesa e florescimento das comunidades. A mudança para as culturas e estruturas patriarcais levou à substituição da Deusa Mãe – criadora e nutridora da vida – pelo Deus Pai, longínquo e punitivo; a ordem religiosa e social tornou-se androcrática e hierárquica e a mulher foi relegada ao papel de vilã, vitima ou escrava, sendo considerada como desprovida de alma e de direitos, por não ter sido criada à imagem do Deus masculino.

Para legitimar o poder patriarcal adotou-se o axioma de que Deus era unicamente masculino, portanto, apenas os homens eram Seus reflexos e somente eles poderiam se comunicar com o divino. Esse dogma oprimiu a alma feminina nos últimos três milênios e destruiu a autoconfiança nos seus direitos e valores, permitindo assim a violência e opressão nos níveis físico, emocional, mental e espiritual. Como consequência resultou um mundo com predominância de valores e ações masculinas, a egrégora desse poder aparecendo disfarçada nos valores culturais, sociais, familiares, espirituais e científicos.

Até hoje em certas tradições místicas e práticas mágicas persiste o conceito patriarcal da liderança espiritual masculina, negando o direito e a capacidade da mulher em dirigir rituais, fazer iniciações, ter visões e revelações ou receber mensagens espirituais fide dignas. A razão oculta da permanência desta supremacia patriarcal continua sendo o medo milenar e atávico dos homens em relação ao poder inato das mulheres no nível mágico e oracular. Esses dons sempre pertenceram a elas, mas lhes foram negados e ao exercê-los, elas sofreram punições ou mortes, por isso o desafio atual das mulheres no caminho da Deusa é superar seus medos, sair do ostracismo e assumir seu poder.

As mulheres contemporâneas precisam de uma tradição isenta de valores e conceitos masculinos, em que não se sintam controladas, podadas ou oprimidas, mas que também não ative nelas a rivalidade e arrogância, conscientes ou não. A autoestima feminina será reconquistada quando a mulher se sentir livre do controle patriarcal, tendo direito para usar suas habilidades psíquicas e criativas, sem se preocupar com a aprovação, aceitação ou rejeição masculina. Todavia, ela deverá evitar os padrões comportamentais nela incutidos pelo patriarcado com a milenar tática de “dividir para conquistar”, competindo com suas irmãs ou perpetuando os jogos de poder. As mulheres atuais devem se unir em uma mesma busca espiritual, conscientes de que o “empoderamento” de uma irmã não ameaça as outras, pelo contrário, contribui para fortalecer a todas.

Quando uma mulher contemporânea decide não mais se deixar dominar, enquadrar ou controlar por idéias, limitações ou crenças patriarcais, ela poderá sentir medo em assumir a responsabilidade pelas mudanças necessárias e as inerentes conseqüências na sua vida. A fé, a devoção e a entrega das suas decisões, opções e ações para uma imagem divina feminina lhe irão permitir a necessária ajuda e proteção, por perceber-se como sagrada e merecedora da liberdade alcançada ao assumir as rédeas da sua vida. Amparada pela conexão com os arquétipos divinos femininos, ela se tornará uma guerreira a serviço da Deusa, de si mesma e de suas irmãs.

O caminho da sacralidade feminina conduz a uma reavaliação de valores, conceitos, atitudes e objetivos, levando ao resgate do poder pessoal, intrínseco e ancestral, que permitirá definir com segurança os objetivos e escolhas. No entanto, o “empoderamento” feminino não significa imitar ou assumir modos, atitudes e comportamentos masculinos, pois a mulher não almeja tornar-se um homem, nem tomar o lugar dele.

O seu propósito é resgatar o poder feminino inato, que lhe permitirá expressar a vasta gama dos seus dons e possibilidades, escolhendo o papel que quer cumprir na sociedade, em família ou no caminho espiritual como “Filha da Deusa”. Como tal ela é forte, mas compassiva, determinada, porém flexível, guerreira mas companheira das suas irmãs de caminhada; ela saberá quando investir ou ceder, usar a espada ou o manto de penas, a armadura ou as asas de cisne. Ao descobrir sua verdadeira identidade, a mulher consciente da sua sacralidade agirá de forma segura, responsável e firme, defendendo seus interesses e limites, mas sem agredir, desrespeitar ou competir com suas irmãs, pois em cada uma ela reconhecerá um reflexo da Deusa. Juntas e de mãos dadas elas irão percorrer, irmanadas, o caminho espiritual que conduz as filhas terrenas ao abraço acolhedor e protetor da Grande Mãe.

Para favorecer e ampliar o crescimento multifacetado da mulher atual, torna-se imperioso que ao restabelecer sua conexão com a Deusa, ela conheça e aplique os conceitos das cinco áreas tradicionais da ancestral sabedoria feminina, ou seja: o caminho da mestra, da curadora, da visionária, da sacerdotisa e da guerreira, que abrangem os aspectos físicos, emocionais, psíquicos, mentais e espirituais femininos.

Ao longo da dominação milenar patriarcal foram permitidos e aprovados os aspectos de mãe e mestra, o ensino sendo a profissão designada pro excelência para a mulher e sua missão existencial, a condição de mãe. Para entrar no campo da cura a mulher está batalhando até hoje, apesar de que as mulheres sempre foram as curandeiras, parteiras e herbalistas. A história de diversas culturas atesta também que as visionárias eram sempre mulheres, que guiavam as decisões dos chefes de tribos, os conselhos das comunidades, as opções de guerra ou paz, prevendo o desfecho das batalhas e as calamidades naturais, que transmitiam as mensagens das divindades e dos espíritos ancestrais. Porém, o patriarcado reprimiu e depois proibiu a atividade visionária das mulheres e negou sua inata capacidade de conexão com o plano divino.

Da mesma forma, foi condenada e cerceada a atuação da mulher como guerreira, mesmo conhecendo sua inata e feroz capacidade defensora dos seus filhos, bem como sua astuta atuação mediadora nas negociações de paz. O aspecto mais combatido e perseguido foi o sacerdotal, por temer sua associação com os poderes mágicos da Lua, dos ciclos, dos espíritos e das energias naturais. As religiões patriarcais como a hebraica, muçulmana e cristã destruíram a tradição sacerdotal feminina, sendo que a Inquisição criou a odiosa “caça às bruxas”, perseguindo e aniquilando as mulheres devido ao seu reconhecido e temido poder sagrado e mágico. Almejava-se também a negação dos direitos ancestrais das mulheres, que lhes permitiam possuir bens, escolher parceiros, ter a opção de gerar ou não, nomear filhos, transmitir conhecimentos, desenvolver e praticar seus dons espirituais e criativos, reverenciar e celebrar as Deusas e a Mãe Natureza.

Na ativação dos cinco caminhos da ancestral sabedoria feminina, a mulher atual assimila facilmente os conceitos de ensino, cura e percepção sutil, mas enfrenta maiores desafios e oposições (internos e externos) para assumir sua capacidade sacerdotal e mágica, devido ao contexto e ambiente religioso, familiar e social em que vive. Porém, o aspecto mais difícil e desafiador para aceitar e exercer é o da guerreira, devido à associação cultural e histórica da luta com violência e agressão. No entanto, a energia de combate e defesa é um dom intrínseco e um direito natural da mulher para se defender de abusos, ameaças, dominação, opressão, injustiças e violências contra si e seus filhos.

O reconhecimento do direito sagrado de assumir o poder da guerreira é o primeiro passo para que a mulher contemporânea alcance seu “empoderamento” e se reconecte com todos os aspectos e faces da Deusa. A Deusa não se apresenta apenas com a sua face de luz, bondade, e compaixão, pois Ela também é a Senhora das batalhas, a Rainha do mundo subterrâneo e a Ceifadora da vida, das fases, dos ciclos e dos relacionamentos naturais e humanos.

O desafio da mulher que quer reaprender como despertar e direcionar seu poder de guerreira consta em falar e agir sem se tornar agressiva, rude, impositiva, desleal ou injusta, reproduzindo traços indesejáveis do comportamento masculino. O “patriarcado interior” é um resquício negativo e nocivo que a mulher deve detectar e eliminar do seu subconsciente e da sua conduta diária, seja em que situação ou nível se manifeste.

Nem sempre o real arquétipo mítico das Valquírias é bem compreendido e assimilado, sua avaliação costumeira permanecendo na interpretação tradicional como auxiliares armadas do deus Odin e condutoras aladas das almas dos guerreiros mortos em combate. Todavia o seu simbolismo é muito mais complexo e amplo, pois a sua verdadeira natureza é de sacerdotisas da deusa Freyja na sua manifestação de Valfreyja, a Senhora do amor, da guerra e da magia.

Conhecidas sob diversos nomes – Waelceaig, Waelcyrge, Valkyrje ou Alaisiagae – elas eram “realizadoras dos desejos humanos” (como Oskemeyjar), “mulheres vitoriosas” (Sige wif), “portadoras dos escudos” (Shield Women) ou apenas as Idisi, as magas ancestrais que enfeitiçavam ou desfaziam maldições e amarras (materiais e mentais), faziam encantamentos (para mudar o tempo, proporcionar vitórias e proteger as mulheres) ou apareciam em sonhos ou visões transmitindo mensagens e alertando sobre perigos iminentes.

Uma mulher que precisa ativar ou reforçar seu poder pessoal desenvolvendo a determinação, assertividade, resiliência, espírito combativo e destemor, irá encontrar na conexão com sua “Valquíria interior” um poderoso auxílio para seu crescimento mágico e espiritual. Para descobrir e ativar a “Valquíria interior” é necessário criar e projetar uma aura de confiança, segurança, altivez e invulnerabilidade, prestando atenção às sutis invasões do seu espaço, às provocações ou falta de respeito em relação à sua pessoa ou atuação, seja humana, sacerdotal ou mágica, atos estes provenientes de homens ou mulheres, que, se forem permitidos ou aceitos passivamente, enfraquecem a essência verdadeira do ser. Muitas vezes as próprias mulheres não aceitam a postura e as ações de uma irmã quando ela revela o seu “empoderamento”, julgando-a agressiva ou hostil, quando ela se posiciona e defende seus ideais, sonhos ou valores, em qualquer um dos caminhos que ela esteja trilhando.

Invocar o auxilio e a força das Valquírias requer também a coragem de mudar, pois Elas são deusas de transformação e renovação. Elas ensinam que a mudança e a morte fazem parte das nossas vidas e que comportamentos, valores, atitudes e objetivos ultrapassados ou prejudiciais (a si ou aos outros) devem “morrer”, seguindo o ciclo dinâmico e o pulsar da vida. Precisamos nos abrir e permitir o processo de desapego, sem impedi-lo ou desviá-lo pelos medos, remorsos, mágoas ou dúvidas, colaborando voluntariamente com a mudança para que ela seja suave e não repentina, nem traumática.

Usando o poder da Valquíria para assumir o controle da sua vida, defender seus direitos e limites, fortalecer e expressar seu magnetismo pessoal irá permitir à mulher moderna novos meios e formas de afirmação e realização, resgatando seu ancestral e sagrado poder de guerreira, para o seu bem e em benefício do Todo

 

Por: Mirella Faur

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EQUINÓCIO VERNAL, O INÍCIO DO ANO NOVO ZODIACAL

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As mais antigas denominações das constelações são originárias da Babilônia, mas o signo que atualmente conhecemos como Áries não existia nos zodíacos antigos. Em seu lugar havia uma constelação chamada Hireling, que simbolizava um trabalhador manual. Foram os egípcios que nos deixaram o nome de Áries, representado ora como ovelha, ora como carneiro. Áries representa o poder do ego individual emergindo do oceano coletivo, o próprio impulso de ser; por isso ele simboliza o novo, a iniciativa e os começos, sendo o primeiro signo na roda zodiacal. Quando o Sol, no seu movimento aparente, passa do hemisfério sul para o hemisfério norte e o dia é igual à noite comemora-se o Equinócio Vernal (21/03), que assinala a entrada da primavera no hemisfério norte e do outono no hemisfério sul. Esta data é especialmente valorizada pelos astrólogos, por corresponder ao início do Novo Ano Zodiacal.
O mais importante festival do calendário babilônio, comemorado no equinócio vernal, era o começo do Ano Novo, quando ocorriam as akitu, cerimônias de doze dias que incluíam rituais para purificação e regeneração, uma encenação da criação do mundo surgindo do caos original e a sintonização com os ritmos e as energias da Natureza. As cerimônias eram finalizadas com o rito do “casamento sagrado” – o hieros gamos – entre o rei (que representava o Deus) e a sacerdotisa (representante da Deusa), cujo objetivo era assegurar a fertilidade do reino. Por ser uma data muito importante e uma ocasião de alegria e renovação – humana e da natureza -, seguiam-se festas públicas e comemorações durante vários dias.
Na Palestina o equinócio vernal também detinha um papel preponderante nas celebrações do deus El (modificado para Elohim no Velho Testamento) e das deusas Asherah – sua esposa e mãe dos demais deuses – e Anath. Este culto palestino foi adotado pelos israelitas que cultuavam os deuses Baal e Astarte, até sua proibição e perseguição pelos patriarcas hebreus, adoradores ferrenhos e fanáticos de Jeová. A existência da reverência aos ciclos e elementos da natureza na herança judaica é atestada pela orientação exata do templo de Salomão (que era a construção religiosa mais valiosa para os judeus e depois para os cristãos) para o nascente do Sol no equinócio de primavera. Neste momento, a luz solar entrava pelo vão do portal e brilhava sobre o altar central do divino, um fato natural, mas que fazia parte do cerimonial, sendo um momento muito importante e de intensa reverência religiosa.
Os povos mediterrâneos continuaram a celebrar o equinócio da primavera como o início do Novo Ano; evidências encontradas nos sítios megalíticos das Ilhas Britânicas confirmam a existência destas tradições também entre os antigos povos celtas. Para os romanos várias celebrações como Lupercália, Matronália, Hilária marcavam o “Novo Ano Zodiacal”, comemorado até a instauração do calendário gregoriano em 1582. O “Novo Ano” passou a ser comemorado no dia primeiro de janeiro, o nome do mês derivado de Janua, a “Deusa Guardiã das Portas” (transformada depois no deus Janus), que tinha duas faces, uma olhando para frente, outra para trás. O festival de renovação anual passou a ser Saturnalia, dedicado ao deus do tempo, Cronos (ou Saturno) e celebrado próximo ao solstício de inverno (em dezembro). Mesmo assim, alguns países europeus continuavam a celebrar seu “Novo Ano” no equinócio de primavera, como França (até 1564), Escócia (1600), Alemanha protestante (1700), Rússia e alguns países ortodoxos até 1706, Inglaterra (1752), Suécia (1753). Grécia adotou o dia primeiro de janeiro como data oficial do “Novo Ano” apenas no século 20.
Na Roda do Ano celta o equinócio vernal marca a metade do intervalo entre dois Sabbats – Imbolc e Beltane; ele representa o equilíbrio (entre luz/escuridão, dia/noite, masculino/ feminino), a entrada do Sol em Áries e uma oportunidade cósmica e ritualística de introspecção, avaliação e renovação, antes de iniciar as mudanças e os projetos necessários, para marcar de fato, o começo de um “Novo Ano zodiacal”.
No calendário cristão existem duas datas adaptadas do equinócio vernal: a primeira é a “Festa da Anunciação da Virgem Maria” no dia 25 de março, escolhida para transcorrer um prazo de nove meses até o suposto nascimento de Jesus em 25 de dezembro. Esta data, nas antigas culturas, correspondia aos festivais das deusas Ártemis/Diana, nas suas apresentações como “Mãe Divina, a Senhora dos Mil Seios”, cuja estátua se encontrava no antigo templo de Éfeso (considerado uma das Sete Maravilhas do mundo antigo). No ano de 451, devido à pressão popular, o Concílio de Éfeso proclamou Maria “Mãe de Deus”, dando assim a aprovação oficial para sua adoração pelos cristãos, antes pouco incentivada e até mesmo reprimida. O Concílio consagrou o antigo templo de Ártemis como um local sagrado para Maria, acreditando-se que ela teria passado seus últimos anos de vida neste lugar. Alguns grupos neo-pagãos estão resgatando a antiga importância desta data denominando-a Lady Day, dedicada à Deusa e aos antigos rituais primaveris de renovação das deusas Ártemis, Astarte, Athena, Cibele, Diana, Ísis, Juno, Luna.
A segunda data do calendário pagão adotada pela igreja cristã é a Páscoa, que guarda o antigo significado da vitória da luz (o Sol da primavera substituído por Jesus) sobre a escuridão do inverno (a morte). Um antigo motivo mitológico de várias culturas era a descida da Deusa para o mundo subterrâneo, onde ela permanecia três dias e depois ressurgia, devolvendo a vida e a fertilidade da terra, no início da primavera, após a ausência da vegetação e a aridez dos meses de inverno. Os três dias correspondem à lua negra, período em que a Lua não é visível no céu (representando a estadia da Deusa no reino da escuridão). Este mesmo prazo foi adotado pelo cristianismo para a duração do sepultamento de Jesus, a sua ressurreição se dando no terceiro dia, que é o domingo de Páscoa.
O nome em inglês e alemão para a Páscoa – Easter e Östern – foi tomado “emprestado” da celebração pagã das deusas Eostre (celta) e Ostara (saxã), regentes da primavera e da fertilidade, celebradas na lua cheia mais próxima do equinócio de primavera. Como a igreja não comemora as luas cheias – pelo contrário, sempre ignorou e condenou os rituais lunares – a solução encontrada foi marcar a Páscoa para o primeiro domingo, após a primeira lua cheia, depois do equinócio vernal. Porém, se este domingo cair na lua cheia, a Páscoa é adiada – sem outras explicações – para o domingo seguinte. A data da Páscoa ortodoxa varia até treze dias de diferença (antes ou depois da Páscoa católica) devido ao uso prolongado do calendário Juliano pela igreja ortodoxa, enquanto a católica passou a usar mais cedo o sistema gregoriano.
Ostara era uma deusa teutônica da aurora e da vitalidade, chamada “Madrugada Radiante”, regente do renascimento da vegetação na primavera e da fertilidade (vegetal, animal e humana), equivalente a Eostre, a deusa anglo-saxã da primavera. Ambas eram representadas como jovens coroadas com flores, segurando uma cesta com ovos e cercadas por lebres, sendo celebradas com canções, danças e alegres procissões de mulheres enfeitadas com guirlandas de folhas e flores. Elas recebiam oferendas de ovos tingidos, pintados ou decorados com símbolos tradicionais e pães e roscas doces em forma de lebres, animais associados à Lua e renomados pela sua fertilidade. Os seus nomes deram origem ao hormônio feminino (estrógeno), ao cio (estrum) e à denominação da Páscoa (Östern em alemão e Easter em inglês). Os seus atributos mágicos e os símbolos a eles associados foram adotados como objetos festivos e significativos na comemoração da Páscoa cristã, fato que perpetuou a antiga egrégora do Sabbat Ostara, sem que a Igreja explicasse a enigmática relação entre Jesus, os coelhos e os ovos. A sobreposição de símbolos pagãos e cristãos foi a maneira encontrada pela Igreja cristã para erradicar as antigas celebrações desse Sabbat, equiparando a ressurreição de Jesus ao simbolismo pagão do equinócio – do renascimento da terra na primavera – preservando as imagens do ovo e inventando “o coelhinho da Páscoa”, substituto da lebre.
Resquícios do mito da deusa celta Ostara, padroeira da fertilidade e renovação da Natureza celebrada no equinócio da primavera, permaneceram nas crenças populares e persistem até os dias de hoje, apesar das pessoas desconhecerem sua origem. Os símbolos de Ostara eram o ovo e a lebre, sem relação entre si, mas ambos significadores de criação, renovação e proliferação. Com o passar do tempo, surgiram os contos do “Coelho da Páscoa” e a sua inexplicável associação para os leigos com a festa cristã e os ovos de chocolate.

SIMBOLISMOS OCULTOS DO OVO
Na cosmologia da Deusa o ovo é um símbolo universal da criação do mundo pela Grande Mãe, manifestada como uma “Deusa Pássaro”. Em vários mitos das antigas culturas da Ásia, Polinésia, África, do norte europeu e das Américas, encontram-se descrições semelhantes do nascimento do universo, quando ele emerge de um ovo cósmico, atribuído à fértil força geradora feminina, a Grande Mãe.
No Egito, a deusa Hathor se metamorfoseou na “Gansa do Nilo” e pôs um ovo dourado do qual nasceu Rá, o Sol, o hieróglifo egípcio para ovo sendo o mesmo do embrião humano. Nos rituais egípcios, o próprio universo era visto como o ovo cósmico criado no início dos tempos. Nos sarcófagos aparecia um ovo alado flutuando acima da múmia e levando a alma para renascer em outro corpo.
Os celtas também reverenciavam a “Mãe Gansa” e os havaianos acreditavam que sua ilha surgiu do ovo de um gigante pássaro. Na mitologia grega, Nyx, a deusa da noite, foi fecundada pelo vento e pôs um ovo prateado do qual surgiu a Terra. A lenda finlandesa da criação atribui à deusa Ilmatar – que flutuava sobre as águas primordiais- a criação do Sol, do céu e da Terra, a partir do ovo posto sobre seus joelhos por um misterioso pássaro celestial. Os índios Cahuilla descrevem a criação do mundo surgindo de uma substância cósmica branca, nascida da escuridão; atingida por um raio de luz, esta massa amorfa gerou dois ovos dos quais surgiram um casal de gêmeos divinos, que criaram a Terra e todos os seres vivos. Os índios Omaha acreditavam que no início não havia nada além do silêncio, mas um grande pássaro-serpente apareceu de repente e deixou cair um ovo, que ficou flutuando sobre as águas e dele surgiu a vida.
Os mitos gregos associavam diversas deusas com o ovo cósmico, como por exemplo, Leto, que, fecundada por Zeus, gerou um ovo misterioso do qual nasceram os gêmeos Apollo, representando o Sol, e Ártemis simbolizando a Lua. O historiador Hesíodo relata como a “Mãe da Noite” (o vazio ou abismo cósmico, o espaço infinito), que antecedeu à criação e gerou todos os deuses, criou o “Ovo do Mundo” e de suas metades surgiram o céu e a Terra. Em outra versão, deste ovo (identificado com a Lua) surgiu Eros (o amor), que colocou o universo em movimento e contribuiu para a proliferação da vida. O “Ovo do Mundo” é o símbolo microcósmico do protótipo macrocósmico, “a mãe virginal do caos”.
Para os hindus, o ovo cósmico era a própria criação; no inicio do mundo não existia nada até aparecer um grande ovo, posto por um enorme cisne dourado e que depois de incubado durante um ano se abriu em duas metades, uma dourada, outra prateada- o céu e a terra -, enquanto as membranas se tornaram montanhas, nuvens, rios e mares. Os antigos chineses atribuíam o nascimento do primeiro homem saindo de um ovo posto pelo “Grande Pássaro” Tien.
Pelo fato que o ovo personifica a essência da vida e seus vários estágios de desenvolvimento, desde a antiguidade os povos lhe atribuíram poderes mágicos, tanto para criar a vida, quanto para prever o futuro. Os ovos simbolizam fertilidade, nascimento, renascimento, longevidade e imortalidade; ingeri-los significava absorver suas qualidades, assim como lhes era atribuído o dom de fertilizar a terra. Alguns povos tinham tabus religiosos, filosóficos ou ligados a crendices e superstições, associados com a alimentação com ovos. Os romanos destruíam as cascas dos ovos que eles tinham comido para evitar que fossem feitos feitiços com eles.
Os ovos são símbolos da Lua, da Terra, da criação, do nascimento e da renovação. A iniciação nos Mistérios Femininos é vista como um renascimento, análogo ao ato de sair da casca. O círculo, a elipse, o ovo, o ventre grávido são símbolos da plenitude misteriosa da gestação e da criação. O centro de um círculo é um espaço protegido e seguro, semelhante à escuridão do ventre e do ovo. Inúmeras estatuetas representam as deusas neolíticas, associadas com a Lua ou o ovo. Os alquimistas consideravam o ovo filosofal como o receptáculo de todos os elementos da vida, da matéria e do pensamento. O ovo personifica o poder de nascer através da fecundação exemplificado pelo óvulo, contendo em si todos os elementos essenciais para o seu desenvolvimento. A presença de ovos nos sonhos deu margem a variadas interpretações, os que apareciam inteiros prenunciavam boa sorte, casamento, gravidez ou herança; se fossem quebrados anunciavam brigas, perdas e separações.
Um provérbio latino – omnum vivium ex ovo – resume a antiga sabedoria de que “toda a vida se origina do ovo”. Os ovos têm sido símbolos milenares da fertilidade, nascimento, vida e eternidade. Oferendas de ovos de argila foram encontradas em túmulos da Idade da Pedra na Rússia, na Suécia, nos países eslavos e mediterrâneos, com objetivo de assegurar a vida pós-morte. Os antigos hebreus comiam ovos após os enterros, para garantir a continuidade da sua linhagem e simbolizar a vitória da vida sobre a morte. Com o passar do tempo, o ovo tornou-se símbolo da primavera, do renascimento da vegetação e também do “Novo Ano” para algumas tradições religiosas, mas sem referência à sua antiga origem. A reverência pelo ovo é justificada pela sua forma e pelo seu mistério, sua forma elíptica descrevendo o movimento de todos os corpos celestes e a esfera de luz que envolve as coisas vivas; é na forma ovoide que a potência do espirito se manifesta na matéria.. A gema do ovo representa a energia solar, o princípio masculino, enquanto a clara é a Lua e o eterno e sagrado feminino.
Detentor do potencial da energia criativa da vida, o ovo foi usado de forma mágica por vários povos, bem como nas práticas europeias e africanas de exorcismo e cura. Os sacerdotes druidas Ovates, vestidos com túnicas verdes (a cor da vida) trabalhavam em círculos mágicos. Nos festivais de primavera dos povos nórdicos e celtas, os ovos eram oferendas tradicionais para as deusas Eostre e Ostara, assim como nos rituais do Oriente próximo para Astarte e Ishtar. Os antigos zoroastrianos (adeptos de uma religião monoteísta fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra, a quem os gregos chamavam de Zoroastro) pintavam ovos para sua celebração do Ano Novo –Nawrooz- que coincidia com o equinócio da primavera. Tingidos de vermelhos, eram enterrados no solo para fertilizá-lo; oferecidos às mulheres tinham como objetivo aumentar a sua fertilidade, presenteados às crianças visavam ativar seu crescimento.
Os cristãos consideram o ovo um símbolo da ressureição, enquanto dormente ele contém a nova vida dentro de si. Nas igrejas Ortodoxas e Greco-Católicas os ovos são pintados de vermelho na Páscoa para representar o sangue de Jesus vertido na cruz. A casca do ovo simboliza a tumba fechada, cuja abertura representa a sua ressureição da morte. Os ovos da Páscoa são bentos pelos padres no fim da Vigília Pascoal (sábado de Aleluia) e distribuídos aos fieis. As famílias trazem cestas com ovos tingidos e comidas típicas (roscas, pães trançados, bolos) que também são abençoadas. Na segunda ou terça feira depois da Páscoa, ovos abençoados são levados aos cemitérios e ofertados aos mortos com o cumprimento tradicional “Cristo ressuscitou”. Existe uma lenda no leste europeu, que afirma que Maria Madalena teria trazido ovos cozidos para partilhar com as mulheres na tumba de Jesus e que eles se tornaram milagrosamente brilhantes quando ela teve a visão do Jesus ressuscitado. Outra lenda conta que, depois da Ascensão, Madalena teria ido para o imperador de Roma cumprimentando-o com a saudação “Cristo ressuscitou”, mas ele retrucou que isso era tão irreal, quanto um ovo sobre a mesa dele fosse vermelho. Assim que acabou de dizer isso, o ovo imediatamente se tornou vermelho.
No folclore de vários povos europeus existem crenças ligadas ao ovo, considerados símbolos de fertilidade, humana ou animal. Até o século 17 na França, a noiva devia quebrar um ovo na soleira da sua casa, para assegurar sua fecundidade. Os antigos eslavos e alemães untavam seus arados antes da Páscoa com uma mistura de ovos, farinha, vinho e pão, para atrair assim abundância para as colheitas. Na Inglaterra antiga, crianças percorriam as casas no Domingo de Ramos pedindo ovos; recusar este pedido era um mau presságio para os moradores. Usavam-se ovos também nas oferendas para os mortos, colocados juntos deles no caixão ou sobre os túmulos. Os judeus da Galícia consumiam ovos cozidos ao retornarem dos enterros, para retirar as energias negativas. Na “Noite de Walpurgis” (30 de abril), o Sabbat saxão celebrado nas montanhas Harz da Alemanha (consideradas local de reunião das bruxas), os casais enfeitados com guirlandas de flores dançavam ao redor de uma árvore decorada com folhagens, fitas e ovos tingidos de vermelho e amarelo. Um tipo especial de divinação com ovos – chamada de ovomancía – era praticada pelas mulheres europeias nos Sabbats Samhain, Yule ou Litha, deixando cair a clara em um copo com água e fazendo vaticínios pelas formas criadas.
Os desenhos tradicionais pintados nos ovos reproduzem o movimento da energia em forma de círculos (o ciclo eterno da vida), ondas (água), pontinhos (estrelas), escadas (os planos da existência), cruzes (a união do masculino com o feminino, da matéria com o espirito), linhas, estrelas, nós, triângulos (a deusa tríplice), quadrados (a terra), rodas, espirais (proteção), flores, trevos, árvores. Eles serviam como pontos de fixação para atrair energias de renovação, saúde, prosperidade e proteção. Na Ucrânia e nos países dos Bálcãs, a arte de pintar ovos (chamados pessankas ou pysanka) é muito antiga, reservada às mulheres e preservada até hoje. Os ucranianos – que foram cristianizados apenas no ano 988 – ainda preservam seus antigos costumes e o simbolismo pagão das pessanki. Na Romênia, antigamente os ovos eram tingidos com infusões vegetais – cascas de cebolas, beterraba, salsa – (atualmente usam-se tintas) e pintados com formas geométricas estilizadas, simbolizando riqueza, fertilidade, amor, vida longa, proteção, e felicidade. Quando feitos de madeira eram decorados de maneira mais rebuscada, com aplicações de contas minúsculas e coloridas. Na Romênia, Rússia e Grécia ovos cozidos ou esvaziados do seu conteúdo são até hoje decorados com motivos tradicionais, dados de presente ou usados em competições no domingo da Páscoa. Ganhava aquele que conseguia quebrar os ovos dos concorrentes batendo de leve neles, mas desde que não rachasse o seu. Joias em forma de ovos, feitas para a Corte Imperial russa pelo famoso artista Fabergé, eram cravejadas de pedras preciosas ou continham dentro de si anéis e miniaturas como pássaros, relógios, barcos ou casas. Ainda se encontram este tipo de ovos-miniaturas, usados como enfeites ou nos altares das mulheres que seguem a Tradição da Deusa e que os usam como cofres mágicos para guardar e “chocar” seus desejos e pedidos, neles colocados na comemoração do Equinócio Vernal.

 

Por: Mirella Faur – https://www.facebook.com/mirella.faur